Obsessão (18+)

ATENÇÃO!

O texto a seguir apresenta conteúdo com terror psicológico e uso de drogas, impróprio para menores. Se você não atingiu ainda 18 anos, este tipo de material, apesar de se tratar de uma ficção, pode ofender você.

NÃO PROSSIGA!


Obsessão

“Suposta apresentação repetida do demônio ao espírito” (Dicionário Google)

– De repente, eu superestimo o meu modo de estar, sempre. Acho que minha alegria é confundida com o meu anseio pela felicidade, enfim, eu gosto de olhar para o céu e ver que ele pode estar de outras cores. – Ele falava sobre si, embriagado, e me hipnotizava com sua maneira poética de escolher as palavras em um misterioso movimento que me prendia.

Saímos de um bar, despedi de meus amigos, entrei em seu carro e, embora bêbado, ele dirigiu até um mirante, queria que, com ele, observasse as luzes da cidade enquanto lia um livro e fumávamos mais um beck ao som do álbum “By the Way”, dos Red Hot Chilli Peppers. Lá ficamos até o Sol nascer, ou até nos recuperarmos da brisa da noite, com uma fome feroz e característica de uma aventura transcendente.

De volta para a cidade, ele me levou à uma padaria, de onde terminamos de nos conhecer. Com o dinheiro contado para sua próxima negociação ilegal, paguei nossa conta e ele me levou para casa. Friamente, me deu seu número e partiu – era ele um desconhecido a quem eu ousava querer conhecer melhor.

Nos próximos dias, as mensagens em vão tinham o claro significado: Era só mais um. Mas estava obcecado por aquele andarilho do além, insisti em procurá-lo até que o encontrei em uma nova madrugada, na porta de casa, novamente em estado elevado. Vislumbrado e intrigado, dei a ele uma nova oportunidade e repetimos a passagem do mirante resgatando nossas platonices no crepúsculo matinal:

– Eu sei que o que pensamos pode ser a nossa verdade. Eu, assim como você, conseguia fazer isso também, mas não consigo mais vislumbrar a diferença: acredito que o céu é lilás, porque você o vê lilás, mas sei que ele não é. – Era o que ele dizia por ser mais velho, eu pensava.

– Você está sendo muito racional. Só temos que saber quando mudar a maneira que enxergamos as coisas. – Eu lhe respondi num tom sóbrio.

– E você fala como se o encaixe para as peças fosse possível a qualquer hora. E quando às adversidades? Ou o próprio senso de humor? É como se dispuséssemos de boa vontade todo o tempo para poder admirar-se por nossos pensamentos.

– A constância e a permanência não nos pertencem. Somos peças sem encaixes certos, que por sorte, ou azar, às vezes encontram-se encaixadas. Nem sempre é previsível, de fato, mas, se por azar, porque não mudarmos a lente para tornar a rotina um pouco mais leve? – Neste momento, a sobriedade já havia nos consumido. Discutíamos nossas filosofias e, ingenuamente, nos tornávamos estranhamente próximos – queria revisitar essas ocasiões mais vezes.

Voltamos para casa. Novamente, endurecidos, nos despedimos como quando amigos cansados se despedem – tudo parecia alheio ao que passamos e só queríamos repousar.

Contava os dias que não nos falamos após o enigmático encontro e distraía-me em pensamentos sobre o que ele poderia estar fazendo, principalmente se também pensava em mim – estava apaixonado! Mas não daria meu braço a torcer para chamá-lo outra vez. Foi então que, no meio da noite, como um deja vú, ele chega ao portão de casa e me convida para uma caminhada.

– Preciso ouvir tua voz e teus ditos, estou vivendo um momento de muitas coisas. Perdi os meus sonhos e tento me redescobrir com todo o esforço. Oscilações de esperança e incertezas aterrorizam o meu ser e não sei até quando eu permanecerei forte para lidar com elas. – Ele dizia.

– O que houve? – Eu respondo.

– Como eu me obrigo a estar sempre no grau que estou hoje? – Ele responde e eu percebo que não estava sóbrio. – E quando eu estou normal, não consigo me ver normal, e sim, triste.

– Você quer retomar nossos devaneios? – Pergunto.

– É que você me faz acreditar que sou capaz de tirar opções de onde eu não pareço ter.

– Mas você deve fazer isso por si só. Sabe disso, não é?

– Tudo bem. Você tem razão. Não tinha com quem compartilhar isso, senão com você. Acho que só preciso do meu espaço, como preciso do oxigênio que respiro agora. Podemos voltar?

– Ok. – Respondo e finalizamos nossa perplexa caminhada em silêncio. Mal nos despedimos dessa vez.

Nosso relacionamento já não correspondia ao que um dia havia imaginado, mesmo assim me apegava à importância que ele dera a mim naquele dia, e pensava que os relacionamentos não podem ser perfeitos de qualquer modo. Preocupo-me com ele, e com o que poderia estar sentindo. Faço-lhe uma ligação, porém não me atende. Mais uma vez, tudo se dispersava e eu não sabia como lidar com a expectativa de vê-lo novamente.

Dias após dias, lhe enviava mensagens, todas sem resposta. Me senti sozinho. Parece que quanto mais sabemos de nossa solidão menos nos conformamos com ela. Por que me ignorava assim? Não conseguia o esquecer.

O telefone toca no meio de uma, até então, ordinária noite – era ele, enfim. Não sabia se o atenderia, pois parecia estar brincando comigo. Mas também não conseguia ficar nos falarmos.

– Oi. – Ele disse.

– Oi. Como você está? – Respondi sem saber o que falar.

– Estou bem. Obrigado por aquele dia, há tempos atrás eu não conseguiria chegar até aqui sem ter você como amigo.

– Fico feliz em ouvir isso. Obrigado por me telefonar, estava preocupado com você. – Respondo ainda sonolento.

– Relaxa, estou bem! Você é incomum. O seu carinho, sua diferença… tudo isso é como combustível para alimentar a minha existência, fundamental como água para me manter vivo. – Ele retoma me deixando inquieto.

– Como assim? – Pergunto.

– Eu te amo, você acredita quando falo isso?

– Talvez. Se você sentir o mesmo que eu sinto por você…

– Pode ser que isso seja possível. Posso passar pra te pegar?

– Claro! Estou te esperando.

Ao finalizar a ligação, tive a sensação de um despertar. Um ânimo inexplicável dominava o meu ardente corpo. Em menos de cinco minutos ele avisa ter chegado, talvez já estivesse me esperando.

– Estou precisando muito de sua ajuda. – Ele diz. – Não pediria isso se não fosse mesmo urgente.

– Mas o que você precisa com tanta urgência às duas horas da madrugada? – Pergunto desconfiado.

– Vou te levar a um lugar e preciso que você somente me acompanhe. Não queria ir sozinho.

– Bem, não tem como eu fugir né?

– Se você não quiser ir, eu posso te deixar em casa. Ele responde.

Ainda que estivesse duvidando de suas intenções, não queria perdê-lo de vista, ou perder a oportunidade de tê-lo novamente, nem que por pouco tempo. Queria aproveitar aquele momento a todo custo.

– Não, tudo bem. Eu te acompanho. Respondo.

Seguimos a viagem. Entrávamos em caminhos pelos quais nunca transitamos antes. Era uma biqueira. Não era surpresa o que ele iria fazer por lá, já o conhecia ligeiramente bem para saber o que esperar, porém era possível sentir a tensão daquele instante.

Ele sai do carro, pede que eu o espere. Faz uma rápida troca com o rapaz que parecia o esperar. O rapaz deixa o local, desaparecendo como um fantasma, em um canavial que beirava a rua sem saída. Aquele homem, por quem eu havia me apaixonado, me causa um susto ao entrar no carro.

– Uma arma!? O questionei desesperadamente.

– Vamos sair rápido daqui.

– Caralho! O que você vai fazer com isso?

– Já te explico.

Fico sem saber o que fazer. Apenas recordava suas palavras no telefone, dizendo que me amava e, de modo bizarro, segui o trajeto de volta confiando nelas. Éramos cúmplices, e isso me afagava. Ele segue um novo caminho e para seu carro em um local diferente, liga o som do carro, coloca o álbum que escutamos em nosso primeiro encontro. Dichavamos a erva, preparamos um baseado, fumamos em silêncio. Enquanto ele agia de modo usual, eu ainda estava assustado com a arma, mas resolvi não perguntar sobre ela. Uma bad trip parece ter tomado conta de nós dois ao mesmo tempo que a música “I could die for you” tocava.

– Eu gostaria de chorar e deixar todas as lágrimas caírem pelo meu rosto e senti-las até secar e cessar o choro. – Ele rompe com aquele silêncio sepulcral, com um pequeno lacrimejar nos olhos. – Nem isso mais eu consigo fazer. Até de purificar-me fui privado. Quão grande foi o mal que fiz a mim mesmo para merecer tamanho castigo em vida?

– Ei! Não tem porquê pensar assim. Nada é perfeito, e todos temos fases ruins, mas elas passam. Entramos na bad juntos, veja só! Respondo na esperança de deixá-lo em paz consigo mesmo.

– Ainda bem, e ainda bem mesmo, que te tenho. Você sabe o que dizer para confortar e me dar forças necessárias pra continuar andando.

– Acho que é natural quando se ama alguém…

– Me surpreendi comigo. Me faz um mal saber que eu sou pego por isso, ainda… Fui hostil demais, beligerante, arrogante, insensato ou ardiloso até? Não sei o que fui ou deixei de tentar ser. Só não consegui fazer com que o meu coração ficasse em paz.

– Queria poder te ajudar, poderia fazer qualquer coisa pra te ver bem agora. Mas devemos considerar que estamos um pouco alterados. Ouça a música… I could die for you… é o que eu sinto quando eu estou com você… saiba que você é amado a ponto de alguém morrer por você!

– Você faria mesmo isso por mim?

– Claro que sim!

– Eu duvido. Puxa o gatilho agora, então. Ele me surpreende.

– Espera! Não é assim, não precisamos fazer isso de fato. Respondo num tom de espanto. Minhas mãos começam a suar.

– Então como saberei que é verdade?

– Você tem que confiar em mim.

– Você mentiu para mim, eu sabia que não podia confiar no que você me dizia. Você só diz as coisas que eu gostaria de ouvir. Para quê? Para que eu finja sentir o que eu não estou sentindo de fato? Você acabou de desgraçar a minha vida! Minha última esperança em algo e em alguém!

– Para com isso. Não estamos bem para discutirmos ou se quer fazermos nada agora. – Tento sair do carro, mas percebo que estou trancado nele. – Me deixe sair do carro, preciso tomar um ar.

– Não. Fique aqui um pouco comigo.

Minha única possibilidade era permanecer alí.

Ele desliga o rádio, acende mais um baseado, liga seu carro e sai. Toma o caminho de volta à cidade, deixando-me em segurança em casa. As palavras dele se cumpriram. Enquanto que um forte sentimento de frustração tomara conta de mim – minhas palavras de nada valiam. Assim, percebia que havia perdido aquele que amei. Mas ainda estava preso à ele. Como poderia deixá-lo partir daquela forma?

No dia seguinte, no horário que ele usualmente costumava me ligar, eu lhe retorno com uma ligação.

– Oi. Foi tudo o que me respondera ao atender.

– Como você esta? Eu lhe perguntei.

– Estou de ressaca e você?

– Estou bem. Será que você pode passar aqui agora? É urgente.

– Logo menos irei sair. Quando chegar te dou um toque.

Era como se nada tivesse acontecido. Estava transtornado com a ideia de que ele não mais me amava. Esperei-o por duas horas, até chegar. Enquanto o esperava, pensava em mil e uma razões para tanta demora. De fato, já não me tinha como prioridade, ou com a mesma importância que havia me dado anteriormente. Me dirijo a seu carro com a esperança de reverter a situação.

– Não fale nada – Eu disse – Preciso desfazer o mal-entendido da última noite, você pode confiar em mim, só me deixe provar isso a você.

Sem deixá-lo dizer mais uma palavra. Tiro da blusa uma faca de cozinha e consigo dar uma suficiente e fatal facada em meu pescoço. Caio em seus braços, onde sempre imaginei estar, e então percebo que poderia ser recíproco de novo.

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