Tudo o que é sólido desmancha no ar

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”

Quando lia este título, em especial, ao conjunto de palavras que forma essa frase, pensava sobre a liquidez das coisas. A vida nos dá esses alertas, e para os alertas, um livro.

Retomo ideias que fizeram sentido à luz da modernidade e, neste ponto, esclareço – não, não somos modernos, somos contemporâneos, embora a sensação da modernidade ainda persista.

A didática caiu em minha poesia e hoje tenho que explicar, pois mesmo não estando ignorantes, estamos carentes, e o amor por qualquer coisa que se mostre diferente de tudo, à capricho do ego, faz com que a lógica das coisas recaia sobre nós mesmos – nanoensaios da poeira de uma natureza societal. Embora a carência já fosse própria do nosso ego.

E é esse, assim julgado por mim, vazio de sentido, esse desmanche das coisas concretas e de tudo o que construímos que, neste breve rascunho, gostaria de colocar e, quem sabe, deixar para num futuro reescrever.

Quase três décadas se passaram – somente do dia em que eu nasci. Nunca pensei que diria que teria medo de algo que fugisse dos medos de altura, de fantasmas, do escuro, daqueles narrados pelas crianças – sagrada inocência.

Então cresci e depois de perder toda inocência, acreditava que nada mais me preocuparia à ponto de ficar com medo, ou melhor, com um medo específico – medo de sair de casa.

E por quê? É que me parece que, mesmo na contemporaneidade, o espírito do que foi a modernidade e sua criativa e brutal construção, nunca estivera tão contemporâneo – ou será que talvez nunca deixamos de ser modernos?

Voltemos à Auschwitz – Sul da Polônia – nos campos de concentração da Alemanha Nazista. Pela ascensão de uma camada da população, da mais carente (em sentido íntimo) e que se julgava superior, vislumbrada por uma narrativa baseada no que se queria ouvir, inicia-se um dos maiores massacres “justificados” da história da humanidade. Justificados?

Ou nos voltemos à Blair no massacre das bruxas. Ao Brasil, no genocídio indígena e à escravidão, ou aos incontáveis episódios violentos da ditadura. À Venezuela, de discurso próspero, e hoje, incoerente. Aos desperdícios de comida e à resistente fome na África. Dentre tantos outros episódios que eu ouso descrever em tom ilustrativo, porém, você pode dizer, apelativo. Enfim, todos com sua justificativa.

As narrativas que se tem construído ao meu redor são baseadas em justificativas – das quais o ego necessita, pois estamos carentes – e que, por já serem conhecidas, são manipuladas, em especial, agora, em um contexto democrático, midiático e de crise, que se viraliza numa sopa de informações aleatórias, a maioria delas falsas com justificativas incoerentes às liberdades individuais que se buscam, ou ao espírito cristão de suas origens. A carência nos cega, acreditamos em qualquer um que nos acolhe, e reproduzimos os mesmos erros do passado. E pra piorar, nessa guerra polarizada escolhemos os mais manipuladores – ou os mais sádicos.

As formas de violência pregadas e disseminadas não são nada além uma forma ignorante de eximir os carentes e excluídos, em especial, homens heterossexuais e brancos, da culpa de um passado que seus antepassados construíram para a hegemonia de sua “raça superior”, que se pareia ao nazismo em certa medida. Um projeto que hoje, em contraste aos projetos emancipatórios para uma grande parcela da população não-hegemônica, , ainda que falhos nesse sentido, se coloca “em risco” na medida em que ameaça a parcela hegemônica da população, deixando-os carentes e com a sensação de estarem excluídos, a “barbárie” da perda de privilégios cada vez mais desamparada legalmente. E como eles buscam parar essa engrenagem contra-hegemônica estando desamparados pelos seus próprios governantes? A saída foi apelar ao extremismo ignorante e irracional da violência, em especial, às populações excluídas e marginalizadas ou àqueles que se opõem a esse projeto – o que me assusta e me amedronta.

Essa parcela da população que tem concordado com os violentos ideais que se legitimam para satisfazer suas próprias carências deixa de ver o próprio futuro e sua construção – constroem as próprias grades e muros, a sua própria prisão. E para isso, na contramão de muitos que se colocam como especialistas tem afirmado, não acredito que nossas instituições estejam preparadas. Não é a partir da confirmação da violência ou de sua legitimação que se modifica qualquer cenário de crise.

Amanhã ocorrem as eleições.  O que me restou foi a tentativa de combater a ignorância proferindo a minha própria nesses tempos de medo. Devemos dizer não àqueles que se colocam à favor da repetição, da manutenção de um sistema violento e de qualquer outro que nos opõe, desmanchando o pouco que temos construído. #elenão

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