Das coisas que eu não acredito

Quando não entendo alguma coisa que me é imposta, seja uma tarefa a fazer ou alguma coisa que é feita de alguma forma específica ou cujo resultado não é visível, às vezes minha falha está em não acreditar nela, desconfiar. O que eu tenho treinado muito trabalhando com biologia molecular – embora essa inquietação sempre vá me acompanhar.

E esse não entender me traz um sentimento peculiar, que se passa como uma intuição de algo em que eu não estou acreditando. E o que eu menos tenho acreditado no momento é no novo governo do nosso país. E, talvez por isso, apesar de ter uma ideia de como as coisas funcionam para ele, eu não tenha entendido, ainda assim, o porquê de certas escolhas ou estratégias políticas – o que é um fenômeno interessante nas políticas públicas, no momento em que algumas pautas ou estratégias são escolhidas em detrimento de outras.

Neste início de mandato e de novo governo, estavam todos atentos, em especial, os mercados internacionais que vivem da exploração do capital (dinheiro que sai de algum lugar), em um mundo cujas fontes tradicionais de riquezas parecem estar cada vez mais secas. E, novamente, o Brasil é visto como um prato cheio e abundante. Ainda mais alienado e domesticado à atender às demandas de quem controla os mercados mundiais, pois nem mais independência o Brasil parece ter (se já a teve algum dia).

E o que me incomoda é essa clareza sobre o papel do Brasil na “nova ordem mundial”: ser fornecedor de mão de obra barata e alienada (fácil de ser explorada para quando, quem pode pagar, quiser), e fornecedor de matéria-prima originária do genocídio indígena e quilombola, do trabalho desumano e da desconsideração sobre a importância da conservação dos biomas brasileiros. Resultado não só dos atrasos, mas da posição passiva de aceitação brasileira frente à essa ordem, à que parece cada vez menos termos força e soberania.

A ideia central neste cenário é que se seguirmos nesta linha que nos foi imposta, só assim teremos crescimento e desenvolvimento. E é difícil acreditar que só conseguiremos prosperar, se continuarmos a educar as pessoas para os interesses do mercado (ou seja, de maneira instrumentalizada e alienada), se desconsiderarmos a importância da preservação da biodiversidade para a vida no planeta, e se não respeitarmos a dignidade das populações indígenas e quilombolas que já sofreram um grande genocídio de sua população e cultura no país – que é para onde as políticas do novo governo tem apontado. Sem contar a desconsideração de outras pautas importantes para o combate à violência à população LGBT+, por exemplo, e a promoção dos Direitos Humanos de fato.

Em outras palavras, será que essa orientação neoliberal é assim tão rasa de conhecimentos pra não conseguir associar  a importância dessas pautas ao crescimento econômico e ao desenvolvimento sustentável? Por que enquanto não serem demonstradas, em sua essência e intencionalidade, políticas neste sentido, eu não conseguirei acreditar em um governo.

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