As Crianças do Pico da Macela

Já não compreendemos o mundo com os mesmos olhares de antes. Tudo temos em nossas mãos: o mundo todo já faz parte de um sistema conectado e nossas ações são reproduzidas e assistidas por estranhos. Entretanto, o que intriga neste fato é o poder que damos às crianças. Pais saem de casa, vão ao trabalho alienante e, muitos, deixam seus filhos sob os cuidados de robôs, vendo um mundo criado por outras pessoas, criando expectativas ilusórias ou entrando em contato com o sexo e a violência sem vigilância. Ressignificar a própria cultura infantil pode dar um novo sentido aos seus destinos? Sem saber a resposta, pouca atenção damos às crianças e as suas vozes.

– Essas crianças de hoje não tem a infância que tivemos, ficam o tempo todo no celular, não querem saber de mais nada, olha, nem prestam atenção na gente! Ei, Julia! Você quer achocolatado no seu leite?

– Eu já falei que sim, mãe! Eu estou prestando atenção em você!

– Está nada!  Faz meia hora que estou falando com você. Vai tomar um Sol, menina, andar de bicicleta com seu irmão!

– Deixa ela, Regina, deve estar conversando com as amiguinhas. Responde o pai, Marco.

– Eu não quero sair, vou me sujar e depois vou gravar um vídeo com minhas amigas. Pai, me leva na casa da Carol?

– Vídeo sobre o quê, Julia? Pergunta a mãe.

– A Carol fez um canal no YouTube e hoje vamos nos reunir pra ela gravar um vídeo entre a gente, todo mundo na escola tem um canal, só a gente vê o canal um do outro.

– Credo! Essa geração tá perdida mesmo, onde já se viu ficar se mostrando na internet, nem sabem quem está assistindo, eu não vou te levar pra fazer isso, você vai ficar em casa e vai brincar com seu irmão, hoje é final de semana, não é Marco?

– É, filha. Sua mãe tem razão. Hoje você ficará em casa com seu irmão e com a gente, vamos dar uma volta na praia juntos, que tal?

– Ai, como vocês são chatos, nunca posso fazer nada que eu quero!

Julia vai para o seu quarto e por mensagem de texto fala com suas amigas:

– Meus pais não me deixaram ir na casa da Carol.

– Eu não acredito que você não vai. Responde Adele.

– O quê? Seus pais são muito chatos, só porque eu separei várias coisas pra gente fazer. Meus pais vão nos levar ao shopping, vou comprar várias coisas diferentes para colocar no meu canal. Carol escreve em seguida.

– Eles já marcaram outro compromisso. Vou ter que ir com eles à praia com meu irmão.

– Que pena! Meninas, sabe o Fabio, aquele menino do terceiro colegial? Ele fez 18 anos, já está dirigindo e quer me levar pra fazer uma trilha no Pico da Macela. Escreve, Carol, mudando de assunto.

– Que tudo! Mas você vai? Como vai conseguir sair de casa? Pergunta, Adele, com entusiasmo.

– Preciso da ajuda de vocês, meus pais já implicaram comigo porque viram minha conversa com ele. Eles acham que sou muito nova pra ficar com ele, mas já temos 12 anos e o Fabio me ama, assim como eu amo ele!

– Carol, mas você sabe que ele quer fazer outras coisas com você, não é? Continua, Adele.

– Eu sei, eu vi na internet que muitas meninas perdem a virgindade na nossa idade. Eu estou com medo, mas vai ser diferente, ele me ama, ele vai me levar pra lá porque é um lugar lindo, olha as fotos. Carol envia as fotos do pico da macela às suas amigas.

– Que lugar lindo! Escreve, Adele.

– Que lindo! Responde, Julia. – Eu também vi que as meninas perdem a virgindade da nossa idade, a Sofia e todas as amigas dela do sétimo ano já deram para os meninos do colegial e outra, nossos pais não sabem de nada, eles vivem demais no tempo deles. Estou cansada deles me dando ordens.

– É, então. Vocês me ajudam? Eu posso pedir para o Fabio levar vocês comigo. A gente faz a trilha juntas e eu fico menos nervosa. Prossegue, Carol.

– Claro! Já até sei como vamos fazer isso – Julia comenta assertivamente – Meus pais vão para a casa da minha avó com meus irmão no sábado. Eu posso falar que vou ficar na sua casa e você fala para os seus pais que vai ficar em casa, aí meus pais me deixam na sua casa e depois voltamos pra minha casa, a Adele e a Ana podem vir ficar com a gente!

– Arrasou! Obrigada, Julia! Responde, Carol.

– Que ideia genial! Adele comenta.

E as meninas de doze anos encerram a troca de mensagens e Carol retoma o assunto com Fabio.

– Fabio, sobre seu convite para ir ao pico da Macela, ainda não falei nada para os meus pais, porque eles não irão me deixar sair.

– Mas seus pais não deixam uma menina de quinze anos sair?

– Eles não me deixam sair com um menino, né… Mas já consegui arranjar um jeito de ir, porém, eu preciso saber se posso levar duas amigas junto com a gente, posso?

– O que você está inventando, amor? Claro que pode, vou arranjar mais uma barraca pra elas.

– Você é incrível, amor! Por isso eu te amo tanto!

– Eu também te amo, avise suas amigas que iremos ter que sair na sexta à noite para conseguirmos pegar o nascer do Sol.

Com o esquema em mente, as amigas e Fabio se preparam para viajar no final de semana seguinte. Julia mente para seus pais sobre ficar na casa de Carol.

– Marco, eu preciso voltar ao escritório, meu chefe está me torturando hoje.

– Tudo bem, amor. Vamos juntos ao centro, também preciso voltar ao trabalho.

– Mãe, a Carol me chamou pra ficar na casa dela no final de semana. É a segunda vez que ela me chama e não vou aceitar não como resposta, vocês não me deixaram ir na última vez.

– Filha, estamos sem tempo agora pra conversar.

– Mas, mãe…

– Filha, neste final de semana vamos visitar sua avó.

– Odeio ir pra casa da vovó, é coisa de velho e ela só fala de quem morreu na cidade, como foi o velório, não quero ir. Se eu for na Carol pelo menos não ficaria sozinha.

– Regina, deixa a menina ir neste final de semana, outro dia ela vai visitar a sua mãe.

– Marco, você tira toda minha autoridade sempre. Não tenho mais tempo pra discutir, faça o que você quiser, filha.

Os pais de Julia saem para o trabalho e Julia avisa suas amigas.

– Meninas, deu tudo certo aqui em casa, meus pais caíram direitinho.

– Que tudo! Fabio deixou vocês irem com a gente, ficarei numa barraca com ele e vocês ficarão em outra. Risos.

– Sua piranha! Responde, Julia.

– Meus pais não vão estar em casa no final de semana, meninas. Não conseguirei ir, tenho que cuidar do meu irmão mais novo. Diz, Adele.

– Ah, Adele! Se é só o seu irmão, leva ele com a gente! Carol responde.

– Sério? Nossa, essa viagem vai ser demais! Adele prossegue.

– Sim! Mas ele não pode dedurar a gente depois, se não, meus pais me matam e eu perco o amor da minha vida!

– Ele não vai falar nada, vou cuidar dele.

Sexta-feira chega. Julia avisa os pais que sairá da escola e irá direto para a casa de Carol. Como sempre, seus pais apressados deixam a menina ir sem muitos questionamentos e partem para a casa da avó. Carol diz para os pais que ficaria na casa de Julia, e ao final da tarde, as duas se encontram com Adele e seu pequeno irmão de 7 anos, que já ficariam sozinhos, e todos vão juntos até a casa de Julia.

– Lucas, a gente vai fazer uma viagem super legal hoje, mas para você ir junto, você tem que prometer que não vai contar nada pra ninguém, posso confiar em você? Pergunta, Adele ao seu irmãozinho.

– Eu não conto, Adele. Eu vou conseguir ver o leão?

– Não sei se lá existem leões, Lucas, mas vai ter um monte de bichinhos pra gente brincar, e a gente vai subir uma montanha enorme!

– Eba! Finaliza, Lucas.

Com todas as suas coisas arrumadas, as meninas pausam para uma foto.

– Carol, não posta nada ainda, se não nossos pais vão descobrir que mentimos pra eles.

– Calma, Julia, não vou postar nada até voltarmos, mas depois, vou postar tudo o que fizermos! Vai ser incrível e todo mundo vai morrer de inveja na escola.

– Ai, Carol, você só pensa no seu canal! Brinca, Julia.

– Mas ele é tudo pra mim! Olha quantos seguidores eu já tenho, um monte de gente do colegial. Estou pensando até em fazer um story, só para melhores amigos, com fotos e cenas sensuais minhas e do Fabio. As meninas do colegial vão ficar loucas!

– Nossa, acho que vai ficar muito legal! Diz, Adele.

– Boa ideia! Ainda mais no pico da Macela. Mas essas meninas do colegial, por que você fala sempre tanto delas? Julia questiona.

– Eu sempre me senti mais velha, parecida com elas, só isso. Não vejo a hora de chegar no colegial e usar aquelas saias, ter mais peitos. O pessoal da nossa idade é muito criança ainda.

– É verdade! Respondem as meninas.

A campainha toca, era Fabio. Carol corre para recebê-lo e quando Fábio entra na casa tem uma surpresa:

– Uou, Carol! Essas são suas amigas?

– Sim! Essa é a Adele, e essa é a Júlia. Aquele é o Lucas irmão da Adele, que vai ter que ir com a gente.

– Ah! Beleza, nossa, elas parecem bem mais novas que você.

Adele era a mais nova dentre as amigas, apesar de ter a mesma idade que as demais, aparentava ser muito mais nova, assemelhando possuir quase a mesma idade do irmão mais novo.

– Elas são mais novas, mas eu não posso ter amigas mais novas? Carol continua a mentir para o namorado, surpreendendo as amigas.

– Entendi. Bom, tudo bem, precisamos ir agora, vou levar as coisas de vocês no carro.

Enquanto Fabio leva suas coisas no carro, Julia e Adele questionam Carol:

– Quantos anos você disse que tinha pra ele?

– Falem baixo, meninas, eu disse que tinha 15 anos, se ele descobrir que tenho 12, ele termina comigo.

– Sua louca! Diz, Julia.

– Estou com medo do que ele pode fazer agora. Prossegue, Adele.

– Ele não vai fazer nada, vai levar a gente pra montanha e só, vamos nos divertir. Responde, Carol, deixando a casa.

– Relaxa, Adele, vai dar tudo certo, meus pais conhecem a família dele, e ele é gente boa. Complemente, Julia.

– Tudo bem, então, só vamos!

Todos os cinco entram no carro e pegam a estrada rumo ao pico da Macela. Carol vai à frente com o seu amado, mantendo sua mão junto à dele. As meninas e Lucas vão atrás, rindo o tempo todo do apaixonado casal. Fábio se sente constrangido, mas prossegue com foco na pista, pois passaria a madrugada toda dirigindo.

Passam-se quatro horas de viagem, as meninas dormem, Fabio então resolve para em um posto para tomar uma água e usar o banheiro. Intrigado com as crianças no carro, ele deixa seu veículo escondido, pega o celular e no caminho ao banheiro liga para seu melhor amigo, Pedro.

– Pedro, é urgente, preciso que você descubra pra mim quantos anos tem a Carol Motta da escola Sagrado Coração.

– Mano, eu to jogando, mas é a Carol filha do Montanha? Que mora na rua quinze de novembro, perto daquela quitanda grande?

– Isso, irmão! Sabia que você ia conhecer, sabe quantos anos ela tem?

– Não lembro, eu acho que ela tem uns dez ou doze anos, faz muito tempo que minha família não tem contato com eles.

– Quê? Ela disse que tinha quinze anos para mim.

– Mano, o que você tá aprontando com ela? Mas, talvez, ela tenha quinze anos mesmo, não sei.

– Não estou aprontando nada, só conheci ela pela internet e ela está dando muito em cima de mim. Mas é muito criança.

– Bem, isso ela é mesmo. Desencana, irmão, se não isso pode dar cadeia.

– Você tem razão. Valeu, mano!

Os dois amigos encerram a ligação e Fabio volta para o carro sem beber água ou ir ao banheiro. Estava decidido a terminar com Carol. Mas já estava muito próximo ao pico da Macela para encerrar a viagem.

– Podem acordar, pessoal, chegamos ao pico da Macela. Diz, Fabio, em um tom de voz mais alto.

– Que susto, amor.

– Vocês não acordavam por nada, tive que quase gritar, Carol. Não estressa.

– Desculpa, amor. O que aconteceu?

– Carol, não me chama de amor, eu sei que você mentiu a idade para mim. Agora, posso ir preso, estou puto.

– Eu não menti, olha meu documento. Carol mostra um documento falso.

– Esse documento é falso. Eu procurei pelo seu perfil na internet e consegui um arquivo da sua escola com sua data de nascimento.

– Desculpa, Fabio, eu não fiz por mal, eu te amo e não quero te perder! Não fica bravo comigo, por favor! Implora, Carol, em prantos.

– Estou bravo que você mentiu para mim e me colocou em perigo, mas, não quero estragar a viagem já que estamos aqui. Temos que pegar, agora, uma trilha a pé, vou ser babá de vocês.

– Fabio, dá um minuto pra gente conversar? Pergunta, Julia, retoricamente.

– Calma, Carol, não chora, hoje vocês vão dormir juntos, ele vai mudar de ideia. Diz, Adele.

– Eu não sei, ele fala mal das meninas da nossa idade, que não as suporta. Tudo o que eu fiz foi porque eu amo ele.

– Se for amor de verdade vocês vão continuar juntos. E ele nem ficou bravo de verdade, olha pra ele. Depois, como a Adele disse, vocês conversam melhor.

– Ai, meninas, que bom que vocês estão aqui comigo. A Sofia do colegial me falou o que ela faz com o namorado quando eles brigam. Eu nunca fiz nada com o Fabio, então, ele não viu ainda que sou madura igual elas, mas hoje vai dar certo.

Carol engole o seu choro, finge que nada aconteceu e segue a trilha rumo ao topo do pico da Macela conversando com suas amigas, enquanto Fabio leva Lucas no colo. Ao longo do percurso os cinco se divertem, embora ainda estivessem preocupados com o relacionamento dos dois amantes.

A trilha fica cada vez mais íngreme e os jovens se cansam. Ao longo do caminho, os cinco param nas cabanas abandonadas que são deixadas para os aventureiros descansarem e se protegerem das recorrentes chuvas da região. A mata naquela época do ano era parcialmente fechada, com uma vegetação típica de uma floresta tropical e fragmentos de floresta de araucárias em meio àquela imensidão. O exuberante verde das árvores se mesclava com o forte marrom das pedras, formando paisagens únicas e um labirinto para quem ousasse se aventurar fora das trilhas.  As cobras, lagartas e escorpiões saiam de seus ninhos para se aquecerem, procriarem e morrerem, concluindo um ciclo milenar de vida e morte. Não obstante, deve ser por isso que os animais sempre sentem quando vão morrer.

– Olha esse cheiro de floresta molhada! Diz, Julia. – Será que vai chover?

– Julia, não dá pra olhar cheiro, sua louca! Comenta, Carol e todos riem.

– Aqui sempre tem esse tempo de chuva, mas é só garoa. Responde, Fabio. – Prontas para continuar a subida? Falta pouco e logo o Sol vai nascer.

– Vamos!

Carol pega seu celular e tenta tirar uma selfie com todos na subida. Fabio deixa a foto deixando a garota ainda mais entristecida, entretanto, ela segue confiando que conseguirá reverter a situação à noite.

Após uma longa e pesada caminhada, todos chegam ao topo do pico da Macela, em um mirante de onde é possível ver o mar. Entretanto, naquela época chuvosa, o Sol nasce atrás de nuvens, esquentando a região e levantando uma intensa neblina. Não se podia ver nem o mar e nem o Sol nascendo. A intensa neblina cegava o caminho de quem por alí estivesse. Um perigo a quem ousasse olhar o abismo à beira do mirante.

– Não estou enxergando nada, meninas, vamos ficar perto, estávamos muito perto da beirada. Adverte, Carol, trazendo as amigas para perto dela. Entretanto, Fabio desaparece na neblina, assim como Lucas.

– Onde está o Fabio? Pergunta, Carol.

– E o meu irmão?

Ouve-se um grito: LUCAS! Em seguida, o grito decrescente de uma criança.

– Lucas! Meu irmão!

Adele dá um passo para procurar o irmão em prantos, mas volta atrás quando um forte vento sopra contra seu corpo trazendo uma neblina ainda mais forte.

– Adele! Grita, Julia. – Fique conosco, o Fabio deve estar buscando seu irmão. As amigas ficam juntas esperando a volta de Fabio e o fim da forte neblina.

Após longos minutos de espera, a neblina passa, Fabio aparece sentado à beira do mirante, em prantos. Adele se desespera e vai até à margem ao lado de Fabio mas nada vê.

– Cadê meu irmão, Fabio? Cadê o Lucas?

Fabio não consegue responder, apenas aponta o dedo para o mar. Adele arregala os olhos como se tivesse avistado um demônio, ou talvez tivesse realmente o visto. Ela olha para Fabio e suas amigas boquiaberta, com o rosto avermelhado e as veias da testa sobressalentes. Começa a passar mal e desmaia. Fabio e as suas amigas a socorrem. Todos decidem deixar o local, pois uma forte chuva se aproximava. Um silencio sepulcral toma conta do lugar.

De volta a um pequeno camping na região, Fabio monta duas barracas, uma para as meninas e outra para ele. Fabio pega um forte remédio para dor e febre para Adele, para que ela pudesse dormir por conta do efeito colateral. Fabio, chama Carol para conversar longe das outras meninas.

– Você viu o que suas mentiras fizeram? Eu tô ferrado, Carol!

– Eu não imaginei que isso ia acontecer, meu amor, me perdoa. A gente vai dar um jeito, foi um acidente, por favor…

– Seus pais sabem que vocês estão aqui ou que saíram comigo?

– Não, eles não sabem de nada, vai ficar tudo bem, eu juro…

– Não vai ficar nada bem, presta atenção. Olha o que aconteceu com o Lucas!

– Ninguém vai saber que foi você. A gente conversa com a Adele, a gente dá um jeito…

– Você acha que a Adele vai ficar como depois, carregando toda essa culpa?

– Eu não sei, mas ela não pode contar que foi você, vou pedir pra ela.

– Não tem como, quem mais vai assumir a culpa de tê-las trazido até aqui?

– A gente dá um jeito, Fabio…

– Que jeito?

– Ninguém sabe que a gente está aqui, ninguém vai saber de nada, todos carregamos essa culpa, assim como Adele, juntos nos protegemos, mas você tem que ficar comigo…

– Para de joguinhos, Carol, não é momento pra isso, você está louca?

– Eu não quis dizer isso, amor…

– Deixa pra lá, vamos dar um jeito.

Carol e Fabio vão juntos conversar com as meninas. Fabio segura firma no ombro de Carol e ela sente seu perdão e sua permanência ao lado dela – a garota não podia estar mais feliz!

– Meninas, preciso falar com vocês. Diz, Carol. – Eu ferrei com tudo, com todas nós, com a família da Adele, com o Fabio e com você Julia. Só que isso pode ficar pior, isso pode acabar com todas as nossas famílias e com a vida de Fabio se contarmos para nossos pais.

– Que merda que a gente fez, Carol! Responde, Julia. – Não tem como consertar isso, e o corpo do Lucas?

– Vocês vão ter que fingir que ele sumiu. Diz, Fabio, imperativo.

– Mas, meus pais nunca vão me perdoar, era pra eu cuidar dele!

– Calma, Adele. Eles são seus pais, eles vão te perdoar. Responde, Carol.

– Mas eu nunca mais vou me perdoar.

– Vai dar certo, Adele, você tem que fazer isso pela gente. Suplica, Julia.

– Eu vou tentar, meninas, mas e meu irmão?

– Adele, seu irmão sumiu, lembra? Precisamos estar juntas a partir de agora. Repreende, Carol.

– Tudo bem… Adele responde em prantos.

As meninas se abraçam e colocam Adele para dormir. Julia acompanha a amiga, enquanto Carol e Fabio vão descansar em outra barraca. Os dois tentam dormir, separados e não se tocam. Carol permanece acordada até a noite chegar e deixa a barraca em seguida. Senta-se nos bancos que ficam do lado de fora e passa a observar a paisagem da natureza da região à noite. Ainda havia uma leva garoa e uma breve neblina, mas a garota coloca uma blusa e caminha pelas redondezas.

– Lucas! Ela grita. – Cadê você?

– Adele! Ela ouve.

– Lucas! Ela grita novamente.

– Adele! Ela ouve mais uma vez e corre atrás do garoto.

Carol anda por vários lugares em busca do garoto com a lanterna do celular acesa e com medo, gritando por Lucas e ouvindo a sua voz chamar Adele, entretanto, não consegue encontrá-lo. Carol se vê longe do camping, com a bateria do celular fraca e decide voltar. Ao virar vê a sombra de uma criança perdida no nevoeiro. Era ele. Carol corre para alcançá-lo e, finalmente, o encontra.

– Lucas!

O garoto entra em prantos, como uma criança que se perdera dos pais.

– Que bom que te encontrei, Lucas. – Tudo vai ficar bem agora.

Carol pega o garoto no colo e o leva até o camping. Ao chegar, encontra as barracas vazias. Fábio e suas amigas haviam desaparecido.

– Fabio! Ela grita. – Achei o Lucas!

De longe, Fabio escuta a menina e corre ao encontro dos dois.

– Como assim? Eu o vi derrapar na beira do mirante! Diz, Fabio, espantado.

– Ele está machucado, mas ele não caiu lá em baixo, deve ter escapado.

– Merda! Grita, Fabio.

– Calma, Fabio! Foi só um susto, onde estão as meninas?

– Não sei, elas devem estar no banheiro. Responde Fabio escondendo e limpando a mão suja de terra na própria roupa.

– Fábio, o que é isso na sua mão? Porque esta com uma pá e porque ela está suja de terra?

– Você conseguiu, conseguiu destruir a minha vida com suas mentiras, mas eu não vou fazer o mesmo com você. Suas amigas estão alí atrás, Carol, porque achei que não teria mais chance de eu escapar disso. Agora, o Lucas aparece e eu tenho certeza que estraguei tudo.

– O que você fez, seu monstro? Socorro! Ela grita, desesperada, assustando Lucas que entra em prantos.

– Calma! Ouve-se um grito da floresta.

Novamente, duas sombras de crianças são vistas em meio à neblina. Eram Julia e Adele. Estavam cobertas de terra, como se tivessem sido enterradas vivas.

– Calma, Carol, estamos aqui, ele não nos matou. Diz, Júlia.

Fabio se espanta, estava surpreso, assustado, porém, aliviado.

– O que tá acontecendo, Julia? Pergunta, Carol.

– Nada. Ela responde. – Estamos todos bem agora e vamos ficar todos bem.  Fabio, leva a gente pra casa agora, antes de nossos pais chegarem.

Fabio não consegue se mover ou falar qualquer coisa, estava paralisado com a situação. Aos poucos, as meninas vão se limpar, trocam suas roupas, arrumam as coisas e desfazem as barracas. Adele puxa Fabio que as acompanha. Os cinco voltam ao carro e partem de volta à sua cidade. Na viagem, o silêncio é dominante. Carol olha para as amigas e para Lucas, parecem tão tranquilos, mas ninguém se comunica. Em seguida, ela olha para Fábio, com medo, estava insegura, sem saber o que de fato havia acontecido, então pega o telefone para se distrair.

Ao chegarem na cidade, Fabio deixa as meninas na casa de Julia. Adele e o irmão voltam para a sua casa. Carol mal se despede de seu amado, ambos estavam incertos sobre o que havia acontecido no pico da Macela.

– Julia, o que houve naquele lugar? Pergunta a garota.

– Carol, saímos ainda crianças para se aventurar, a floresta, as montanhas, é tudo muito perigoso e foi fatal, mas aquela experiência nos trouxe de volta para algo que é real! Dois de fevereiro de dois mil e vinte, nunca vou esquecer. Por quanto tempo ficamos lá? Eu nem me lembro.

– Julia, você não está falando coisa com coisa. A gente não ficou nem um dia lá.

– É verdade, tudo não parece ter passado de um dia. Mas foi mágico, não foi?

– Não, não foi, foi horrível e eu quero me esquecer desse dia. Mas, o que o Fabio fez com vocês?

– Ele tirou a gente de lá, nos salvou.

– Eu fiquei tão assustada com ele, com medo de que ele tivesse feito algo com vocês, mas foi totalmente o oposto, preciso pedir desculpa a ele. Ele disse que eu tinha estragado a vida dele e que por minha culpa ele havia estragado tudo.

Julia permanece observando todo o ambiente e não responde a amiga. Seus olhos correm por toda casa, era como se estivesse vislumbrada com algo novo.

– Julia, agora que estamos em casa, vamos tirar uma foto nossa pra mostrar que estamos juntas?

– Tudo bem. Responde a garota.

Carol se prepara uma selfie com a amiga, mas Julia, ao se ver na tela do celular, pega-o e se observa, como se estivesse se vendo pela primeira vez.

– O que você tá fazendo, Julia?

– Essa… essa sou eu? Essa é Julia?

– Idiota, vamos tirar uma selfie, logo. Carol pega o celular e tira uma selfie.

– O que você fez? Diz, Julia, espantada.

– Tirei uma foto nossa.

– Você não pode fazer isso. Nossos espíritos ficarão presos aí, e eu não terei mais…

– Julia! Carol grita ao ver a amiga revirar os olhos, cuspir uma serpente envolta em terra e cair no chão.

Carol se pergunta sobre o que poderia estar acontecendo, se amedronta e volta correndo para a casa dos pais. Adele e Lucas nunca mais retornaram à escola.

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