À não-memória de tudo o que se é lembrado.

Os olhares tem perdido o brilho.
Eles nos contam, somos milhares de milhões,
Sempre números, e estamos mortos nesta poesia póstuma.

Se a morte de todas as coisas já existe,
Então, o que realmente morre?
Talvez – essa constante palavra – tudo o que está em nossa não-memória.

Mas não morremos quando nos esquecemos,
Pois, o que se esquece está vivo em nossa memória.

Morre-se quando se nega a própria memória, o nosso próprio tempo.
Nós mesmos e todas as pessoas.
O que não queremos ver,
Em nossos mundos reais e imaginários.
Os encontros que deixamos,
As lágrimas que escorrem quando nascemos,
Nossa vida nas escolas,
O olhar que se entrelaçou entre as frestas de nossas salas de aula,
O beijo escondido na festa,
As flores que deixei no seu carro,
A primeira conversa pela webcam,
E o poema de Manuel Bandeira:
“Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres” – ele disse.

Te lembro, estamos mortos,
Não porque nos esqueceram, mas porque não significamos nada.
Triste dizer que, nossas palavras,
Ninguém mais as enxerga,
Pois sempre fomos o fogo
Vislumbrando a luz das vitórias,
Forjando heróis e mitos
Efêmeros, da luta ao sangue.
Apagados pelo julgamento de sua própria reprodução.

À não-memória de tudo o que se é lembrado:

O que tenho esquecido se tornou o meu tempo, a minha morte.
E ela é aquele que me acolhe e me amadurece,
Faz (re)brotar a semente,
Devolve à terra o que plantamos.
Amor.

Nesse tempo,

Tenho esquecido de tudo o que sou.
Pois quero que me enterrem todos os dias,
Como essa semente da memória.
Para que floresçam poesias,
Canções,
Arte.

Te bendigo, meu tempo.
O que tempo que tive,
O tempo que tenho,
E os tempos que virão.



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.