Em companhia

Não é a toa que me encontre com Álvaro de Campos e Manuel Bandeira
Sem pretensões, apenas um cigarro ou um café na Tabacaria
Para celebrar intimamente a morte e a vida.

Entendimentos dualísticos, sobre início e fim, é nossa loucura.
Loucura tal, que foi necessário desenvolver uma ciência (incompleta)
Para negar, em ímpetos de esperança, as próprias certezas das ciências.

Mas eu não sou cientista.
Apenas tento escrever versos como os que antes foram escritos antes de mim.
Sem sucesso, muito menos glória ou ouro.
É engraçado – neste ponto isso já não importa.

Construímos os milagres, construímos um mundo.
E inda não entendemos nada disso – apenas nos entendemos.
Só nos encontramos nos próprios encontros.
Nos encantamos com os sorrisos,
E o que mais devemos fazer se não sorrir?
Tragamos cigarros e tomamos café.

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Sintonia Quântica

Recentemente perdi uma amiga de infância. Nossas memórias e loucuras que lá ficaram, mas que valiam a pena serem vividas no presente, parecem não fazer tanto sentido quando uma memória compartilhada se resta viva em somente um de nós nessa memória presente e aparentemente materializada.

De uma nova experiência, o texto:

As expressões são quantizadas
Para gerar afinidades eletromagnetizadas
Por moedas de troca frias
Que criam empatias assincronas
E te colocam em valência
Na sua camada marginal.
Ah! O trânsito probabilístico é uma explosão!
Energia em equilíbrio.
Sorrisos ácidos, contudo,
Os mesmos sentidos básicos.
Assim o meio quer sobreviver.
Mas é falso.
E, embora nos deixem pensar que somos
Matéria de estrelas. 
Somos apenas matéria iluminescente e orgânica – efêmeras – Ópio da imaginação.

Do amor

Quantos passos caminhamos
Girando,entorpecidos e envenenados
Para que nossas mãos se encontrassem?
Um suspiro, o olhar entrelaçado
Quem era você?
Sorria com radiantes devaneios
Quando então distantes.
Um segredo guardado
Tão puro e tão belo
Num disfarce imaculado.
Como um pássaro procurando por água
Estava perto de mim
E eu seria para sempre sua fonte.
Extravasei para então te tocar
Num momento tão fluido
Que sua efemeridade fez-se infinita.
E era apenas nesse paradoxo,
Que nossas certezas se faziam completas.

Aprendi a olhar o céu, além da copa das árvores
E perceber o encanto das musas.
Ele era o próprio céu
E o seu encanto era o seu sorriso,
O estranho fato de conseguir um movimento contínuo e infinito dos meus lábios.

E assim, eu deixei aquele pássaro de plumas livres tomar seu voo.

Enquanto os sentimentos tomavam formas variadas,
Os sentidos atraiam-se e repeliam-se.
Aventurei-me em um voo de arte e adrenalina
E caí.
Olhávamos para o céu inocentes,
Criativos inconstantes
E, por vezes, incompreendidos
– Os homens nunca acreditariam que poderíamos tornar nossas irreais possibilidades
Em nossa surreal realidade!

Pássaro, pássaro, reconhece o meu amor pelo céu. Que é como eu amo.
O admiro todos os dias, acredito que seja real, concreto, de carne e osso.
E eu apenas não consigo tocá-lo.
Talvez não seja o toque.
Algo além do meu não-poder.

Restara-me aprender com os orvalhos o segredo de um dia após o outro.

Ah! Como a vida é engraçada e embaraçosa!

E quem sabe tudo poderia ter sido tão mais simples como colocar a linha em uma agulha,
Se eu não acreditasse que eu pudesse te fazer feliz?
Bendito ópio que se faz perder a razão.
Ao pássaro que tomou seu voo, nunca mais voltou, nem nunca mais voltará,
Todos os dias, levar-te-ei na solidez frágil da memória,
Pois o amor é algo tão raro quanto o dia em que pousou em minha mão.

A pele e o corpo no Inverno – 18+

O conto a seguir, é uma narrativa figurada no século XIV, um período trágico na história europeia, que teve origem a partir de uma proposta de redação que um dia fiz em meu colégio. O texto tem alguns elementos repugnantes, mas a nota foi boa e a professora elogiou o trabalho me incentivando a continuar escrevendo. Será que ela só estava sendo educada? hahaha.


ATENÇÃO! O texto a seguir apresenta conteúdo repugnante, contendo sexo e abusos, impróprio para menores. Se você não atingiu ainda 18 anos, este tipo de material, apesar de se tratar de uma ficção, pode ofender você. NÃO PROSSIGA!


A pele e o corpo no Inverno

Era em pleno século XIV. O poder absoluto afrontava, em pleno gozo, a vida sofrida dos trabalhadores pobres durante o inverno frio e rigoroso. As épocas de grande estiagem eram as mais sofridas.
Dentro das casas, a luta, que outrora era o trabalho, mantinha-se pela efêmera busca pelo aquecer-se. Pais viam seus filhos morrerem por uma grave gripe, enquanto vislumbravam as luzes dos casarões; luzes amarelas e quentes, de despertarem-se os desejos. Os nossos corações perguntavam-se, por que a diferença? A revolta dava seus primeiros impulsos.
Eu era uma adolescente pobre e imunda, fadada a trabalhar e morrer, como as demais. Em minha tenra idade, os espíritos do meu sexo afloravam-se pela minha pele, extravasando pelos poros do meu corpo e língua como um orgasmo.
O trabalho no campo, durante o inverno, era em vão. Porém, todos deveriam contribuir com suas famílias de alguma forma.
Tive que deixar minha casa aos treze anos, fui trabalhar para uma velha e moribunda senhora, cujos poros extravasavam as mais diversas doenças. Foram os primeiros dias na taverna.
Minha boceta nova e úmida era como carne em um açougue, a priori, a carne mais nobre e suculenta. Fui levada ao corte, na cama, por quem pagasse mais. Matava a fome e o frio dos homens do meu povo com meu sangue virgem, que escorria pelas pernas como em sacrifício. Era como se fosse divina na Terra.
Logo o trabalho tornou-se banal e contante, tudo o que eu ganhava era mal dava para mim mesma, mas sempre dedicava uma parte à minha família, a qual sabia que não me veria nunca mais, pelas crianças que nasciam nesse submundo em que eu habitava. Em pouco tempo meu corpo fora se modificando, meus pelos me excitavam ainda mais, o cebo e esperma dos homens me lubrificava e eram como pomadas para os meus machucados. Já não sentia mais nada depois de sete, oito, quinze homens na mesma noite. No frio, não havia banho, acostumei-me com aquela gosma fétida e infecciosa em minha virilha, a qual muitos se atreviam a experimentar.
Certa vez, meu pai aparecera na taverna doente e decrépito. Queria seu último suspiro em vida como animal humano e sedento por prazer. Fui escolhida. Deitei-me com ele e descobri nele os bubões da peste anunciada. Naquele momento, sabia que iria morrer. Uma brisa suave, junto a uma névoa de esquecimento e anestesia tomou conta do lugar. Estava feliz, afinal, sabia que reencontraríamos nossa família em um lugar feliz.


Créditos da imagem: Melancholy – Malarstwo, de Marcin Mikołajczak, 2015, in: link

01.2017 – Victor Hugo – 18+

 


Muitos amigos me pedem para publicar minhas pequenas histórias de terror que eu escrevia quando era mais novo, bem, elas tinham um teor bem sexual e eram bem zuadas e tosquinhas, mas, naquela época, todo mundo adolescente e tudo era polêmico. hahahaha Bem, mas aí vai uma pra inaugurar 2017 com contos de terror, mistério e de morte.


ATENÇÃO! O texto a seguir apresenta conteúdo com sexo, estupro e violência, impróprio para menores. Se você não atingiu ainda 18 anos, este tipo de material, apesar de se tratar de uma ficção, pode ofender você. NÃO PROSSIGA!


Victor Hugo

– Pai, o que tá acontecendo? Pai! Foram as últimas palavras de Tabata ao seu pai, assassinado em sua frente enquanto ainda bem nova.
Apesar dos anos de agressões sofridas de seu pai, Tabata ainda o amava como filha, mas nada mais poderia fazer. Tempos difíceis vieram após a dolorosa cena e, sozinha no mundo, fora adotada ilegalmente, porém, sem saber, por um daqueles assassinos. Tabata foi bem cuidada, nada lhe faltou, e quando completou a maioridade, sem opções, casou-se com seu cuidador. Entretanto, seu marido apenas queria alguém que pudesse cuidar dele em sua velhice. Em sua primeira noite após o casamento, ele diz:
– Agora você dorme comigo. Tira a roupa e se deita de quatro.
Indefesa e ignorante, Tabata atende ao pedido do homem, que chega perto dela com lambidas asquerosas, mas nenhum ato explicitamente sexual. Ele analisa sua vagina, a cheira, e nela coloca seus dedos.
– Você não é virgem, sua vagabunda! Como em todo esse tempo não percebi sua traição? Gritou o homem que, com uma surra, a empurrou na cama.
Então ele colocou seu pênis para fora de sua calça, segurou firme a garota para que não escapasse e dela abusou. Tabata manteve-se sem expressão. O homem goza e deita ao lado da garota.
– Tua vida tá fodida, vagabunda! Amanhã eu vou dar um jeito em você!
Tabata se vira e ambos dormem.
No dia seguinte, ao acordar, ela tinha apenas as malas prontas e um destino incerto pela frente. Seu marido a leva para uma fazenda próxima à cidade, onde uma velha e um primo ficariam e cuidariam da garota. A vida era calma, a velha senhora e seu filho não eram de todo mal. Tabata ajudava na casa e na pequena lavoura, sem saber até quando ficaria por lá. Seu marido nunca mais voltaria.
Poucos meses depois, Tabata sente enjoos e náuseas. A velha com quem vivia toma seu antigo colar de outro nas mãos e coloca o pingente sobre a mão da garota. Ele começa a girar lentamente, contornando a mão de Tabata, como se uma energia estranha estivesse presente.
– Você está grávida. Diz a senhora.
Tabata não fala nada. Apenas pesava em arcar com mais esse fardo como fez com todos os outros que havia passado.
– Não se preocupe, ele ajudará na fazenda. Também diz o primo presente naquele momento.
Tempo depois, Tabata dá a luz a Victor Hugo e cuida dele com carinho até sua adolescência. Tudo parecia bem, porém Victor Hugo se tornara um jovem problemático, expressando um ódio pela mãe que não possuía sentido.
Certa noite, houve-se um grito da velha senhora. Todos correm para o seu quarto, Victor Hugo estava ao lado da cama, sem expressão – a velha estava morta. Não havia sinal de violência, apenas uma morte natural.
– A culpa é sua! Retruca o garoto à sua mãe ao deixar o quarto.
Tabata manteve-se sem reação.
Enquanto o filho daquela velha senhora, chorando, cuidava de sua falecida mãe, Tabata observa a noite da janela, até que percebe  reflexo de um homem, perto da casa. Assustada, ela fala com seu primo e corre para fechar todas as portas e janelas. Todos ficam trancados dentro daquela grande casa velha. Pouco tempo depois, uma fina chuva se inicia e um frio úmido toma conta do ambiente. Tabata procura novamente o homem pela janela mas não o vê. Então, resolve cozinhar para sua família. De frente para uma janela, de repente, o rosto do homem aparece como uma assombração. Tabata grita. Era seu pai, morto há anos. Em seguida, ela desmaia.
Sem saber o tempo que havia passado após o seu desmaio e sem saber onde estava, Tabata acorda e se vê sangrando, presa à correntes com seu filho à sua frente.
– Por que me abandonaste? Ele pergunta.
Tabata não conseguia entender nada, estava muito enferma e não podia pensar em nada.
– Por que me abandonaste? Repetia o garoto cujos olhos estavam gélidos.
Ao sentir o podrido odor que saía de seus machucados grangenados, ela vomita e, devido à intensa febre e às fortes dores, sua únicas palavras eram: “Á gu gu a”. Atendendo aos pedidos da mãe, Victor jogava água e uma estranha sopa no chão para que sua mãe pudesse beber e sobreviver, porém feito uma cachorra, e repetia: “Por que me abandonaste?”
Tabata, já estava inconsciente quando uma forte luz branca toma conta do lugar. Quando desperta, a garota se via deitada com alguns vultos ao seu redor em um lugar imensamente iluminado. As vozes e os rostos lhe pareciam familiares, porém, novamente ela desmaia.
Semanas após a morte da velha senhora e o desaparecimento de Tabata e seu filho, o homem com quem viviam na fazenda a encontra jogada em sua lavoura, nua e cheia de feridas por todo o corpo. Porém ele a resgata, a coloca na cama de sua antiga mãe e toma conta dela até a garota melhorar. Já consciente, em um momento sozinha, Tabata começa a chorar, pois ao revisitar suas memórias, Victor Hugo nunca existiu. Victor Hugo sempre havia sido uma invenção de sua mente. Assim, ela começa a mostrar sinais de loucura, e sem saber a realidade de seus sentimentos, não come, defeca em suas próprias roupas e cama. O homem por quem era cuidada a abandona por estar desgastado com a situação, e ela se vê sem comida, sem higiene, sem nada.
Em poucos dias, surge uma imagem decrépita abandonada em uma cama de urina e fezes, era em que a loucura a havia transformado. Em seu leito de morte, Victor Hugo aparece e se coloca perto de sua cama. Tabata aparenta uma melhora, sabia que não estava mais louca, e tenta sair da cama para mudar sua situação. Porém, no primeiro passo, ela cai. Um homem a segura e a coloca novamente em sua cama, era seu falecido pai, que segurava um feto vivo. Ele então deixa o feto no colo de Tabata.
– Por que me abandonaste? Todos dizem à garota.
Tabata percebe que aquele feto era o que havia aborto quando pequena, após ter sido violentada por seu pai.
Ela olha o feto – uma gota de sangue cai.
Deitada, Tabata começa a sangrar pelos olhos, boca e nariz até a sua morte enquanto Victor Hugo chora por sua mãe desacordada na cozinha.