Remédio

Quando uma estrela deixa de brilhar no céu, encontram-se os encantos da morte.
Simbolizando outras tantas coisas.
Acreditávamos que iríamos morrer e nos ariscávamos mais.
Morremos, nos matamos, de beijos, de lágrimas, de amores e perdas.
Estávamos mais vivos do que mortos.
Percebemos então que teríamos um recomeço, envelhecemos
Pra repensar, não será agora que morreremos?
São as inevitáveis luzes e seus reflexos.
Embora seja tudo o mesmo, as luzes sempre refletem cores diferentes.
É imperceptível ao olhar, mas essa noite o céu era lilás.
Conheci a morte
Embora nunca tivéssemos um encontro marcado.
E quantas correspondências nos havia em comum
Ora em convergência, conflito, desencontrando-se mais que encontrando-se.
A vida é cheia de surpresas, boas surpresas!
Mas as surpresas em nosso cotidiano parecem nunca se repetir.
Pode ser a flor inesperadamente recebida, a infecção indesejada descoberta, detalhes que parecem rotinas inesperadas, surpresas!
Inesperamo-as e isso é belo.
Gosto de surpresas, boas ou ruins, elas nunca são a mesma coisa.
Como também gosto da rotina, de imaginar seu sorriso, toque e o beijo.
Espero pelo dia em que estaremos juntos de novo
E pela hora em que devemos deixar as coisas partirem.
E nunca mais remediar-me com a partida.

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Do amor

Quantos passos caminhamos
Girando,entorpecidos e envenenados
Para que nossas mãos se encontrassem?
Um suspiro, o olhar entrelaçado
Quem era você?
Sorria com radiantes devaneios
Quando então distantes.
Um segredo guardado
Tão puro e tão belo
Num disfarce imaculado.
Como um pássaro procurando por água
Estava perto de mim
E eu seria para sempre sua fonte.
Extravasei para então te tocar
Num momento tão fluido
Que sua efemeridade fez-se infinita.
E era apenas nesse paradoxo,
Que nossas certezas se faziam completas.

Aprendi a olhar o céu, além da copa das árvores
E perceber o encanto das musas.
Ele era o próprio céu
E o seu encanto era o seu sorriso,
O estranho fato de conseguir um movimento contínuo e infinito dos meus lábios.

E assim, eu deixei aquele pássaro de plumas livres tomar seu voo.

Enquanto os sentimentos tomavam formas variadas,
Os sentidos atraiam-se e repeliam-se.
Aventurei-me em um voo de arte e adrenalina
E caí.
Olhávamos para o céu inocentes,
Criativos inconstantes
E, por vezes, incompreendidos
– Os homens nunca acreditariam que poderíamos tornar nossas irreais possibilidades
Em nossa surreal realidade!

Pássaro, pássaro, reconhece o meu amor pelo céu. Que é como eu amo.
O admiro todos os dias, acredito que seja real, concreto, de carne e osso.
E eu apenas não consigo tocá-lo.
Talvez não seja o toque.
Algo além do meu não-poder.

Restara-me aprender com os orvalhos o segredo de um dia após o outro.

Ah! Como a vida é engraçada e embaraçosa!

E quem sabe tudo poderia ter sido tão mais simples como colocar a linha em uma agulha,
Se eu não acreditasse que eu pudesse te fazer feliz?
Bendito ópio que se faz perder a razão.
Ao pássaro que tomou seu voo, nunca mais voltou, nem nunca mais voltará,
Todos os dias, levar-te-ei na solidez frágil da memória,
Pois o amor é algo tão raro quanto o dia em que pousou em minha mão.

O Peixe Dourado

A menina pergunta à mãe sobre seu pequeno peixe dourado por que ele não se mexia.

A mãe responde que ele está dormindo.

Em seguida, a menina pergunta por que, então, ele não fecha os olhos para dormir.

A mãe responde que é porque ele vai vigiar e cuidar dos sonhos da menina enquanto ela dormir.

No dia seguinte, a mãe retira o peixe morto do aquário sem que a menina o perceba.

Chega a noite e a mãe põe a menina para dormir: começa a ler uma história e para.

O livro cai.

A menina olha sua mãe, estática: ela não se mexe, mas está de olhos abertos.

A menina deita em seu colo; fecha os olhos e sorri, singela – a mãe cuidará de seus sonhos.

O corpo da mãe cai leve sobre o corpo da menina.

As duas dormem e o peixe dourado cuidará de seus sonhos.