A regra do jogo

A verdade mata.
Embora a mentira mate do jogo a maioria das peças,
As mais importantes e menos queridas,
Nem sempre a verdade é a regra do jogo.

Perde-se, seguidas vezes.
E você só perde.
Então você mente. A começar, para si mesmo.
Mas essas são regras do jogo
Alguém precisa perder para outro ganhar.

O mecanismo é bonito. Vende.
Mas a regra é clara.
Como peão, se você não serve mais, atrapalha o jogo.
Você é o próximo, também morre.
Te matam, sim. Porque essa é a regra do jogo.

Poucos entendem, falam bobagens.
Mentem novamente, acreditando que a mentira pode ser sua defesa.
Mas as regras do jogo já tinham definido sua sentença.
Você força uma nova mentira.
Ainda não percebeu que sempre começa mentindo a si mesmo.
E isso também te mata aos poucos.

Mente repetidamente, tentando construir sua verdade.
Na verdade, apenas aceita a derrota mais lenta.
A mentira não é a regra do jogo.
Todos perdem.
Embora enquanto peões, todos possam ganhar,

Ninguém aprendeu a jogar.

Todos perdem. Essa é a única regra que aprendi.

Quando entrei na faculdade,
Me perguntaram se eu estava aprendendo a roubar.
Deveria responder: Estou aprendendo a jogar.

E já estava jogando.

 

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Em companhia

Não é a toa que me encontre com Álvaro de Campos e Manuel Bandeira
Sem pretensões, apenas um cigarro ou um café na Tabacaria
Para celebrar intimamente a morte e a vida.

Entendimentos dualísticos, sobre início e fim, é nossa loucura.
Loucura tal, que foi necessário desenvolver uma ciência (incompleta)
Para negar, em ímpetos de esperança, as próprias certezas das ciências.

Mas eu não sou cientista.
Apenas tento escrever versos como os que antes foram escritos antes de mim.
Sem sucesso, muito menos glória ou ouro.
É engraçado – neste ponto isso já não importa.

Construímos os milagres, construímos um mundo.
E inda não entendemos nada disso – apenas nos entendemos.
Só nos encontramos nos próprios encontros.
Nos encantamos com os sorrisos,
E o que mais devemos fazer se não sorrir?
Tragamos cigarros e tomamos café.

O Tempo é insuficiente e o perdemos

É o fim de uma jornada
Coloco-me a pensar sobre o que eu aprendi.
Maldito dom humano.
O que importa sobre o quanto aprendemos?
Pra funcionar em quê?
Eis um basta.
Certo ou errado, ninguém nunca saberá.
O tempo é insuficiente e eu o perco
Buscando encontrar razões que te façam acreditar
Nem eu mesmo sei em quê.
Maquiavel uma vez disse que a história é cíclica,
E talvez ele tenha razão.
Em alguns momentos me pego pensando:
O que somos se não, repetições?
Logo, já deveria saber o que esperar.
Você ainda precisa de uma razão em que se apoiar.
Mas circunstâncias são outras
E isso também pouco importa.
Agora, o tempo é insuficiente e o perdemos.

Desencantamento processual do mundo

Quantos são os domingos em que tudo para?
Nenhum.
A vida é um processo automatizado:
Quando se para, se deixa de existir.

Substituíram o busto de um dos heróis da elite
Era uma catraca.
{{Uma afronta.}}

Foram tempos difíceis aos produtores de sonhos.
Fazer sonhar junto um sonho em que não é seu – que falácia.
Agora consumimos os sonhos.
Estamos mais egoístas.
O seu sonho já não é mais suficiente.

Trinta e um anos
Ninguém parece entender
Vinte e cinco anos
Ninguém entende.

Eles não falarão mais por nós.
Eles estão em Nova York,
Em turnê internacional.
Aos beijos, no cartaz do cinema,
Foram silenciados.

Esqueceram da dignidade da pessoa humana.
Do Leviatã, deus mortal.

O cartaz dizia: “Vem pra rua!”
Era a projeção das vozes do mundo,
Um susto a quem estava adormecido.
Ao menino de 2013 chamavam anarquista.

Encontrou os amigos.
Saiu às ruas sem sentido ou opinião.
Tirou algumas fotos e as postou nas redes sociais.
Fez sucesso entre as garotas.

Economizou 20, 40, 80 centavos todos os dias.
Em um ano foram quase 300 reais.
Ele trocou seu celular.
Em 2014 tirou novas fotos,
Todos estavam às ruas de novo.
Mas também estavam no Estádio
Orgulho nacional desfalecido por 7 contra 1.

Pobre menino descontente,
Entrou em 2015 com o mesmo celular.
Foram tempos difíceis na monarquia à republicana
O rei reinava, mas não governava.
Voltou às ruas com os amigos que lhe restaram.
Tirou novas fotos e as postou nas redes sociais.

Tinha um novo aplicativo no celular – era um açougue.
Nesse marketplace, a carne parecia nobre, com conteúdo.
Aquele menino, etiquetado anarquista,
Uma peça de carne humana comprada virtualmente
Foi também comprada por outra dessas peças.
Match – já não se é o que é por inteiro
– E ele consegue uma namorada.
Nada mudou.

Dois mil e dezesseis
A cultura entrou em gourmetização,
Mas é consumida em fast-foods.
Bellum omnia omnes
Estamos separados
E assim, incompletos.

O poeta pega uma arcaica maçã,
Um refrigerante popular
E mistura tudo em um moderno liquidificador.
Em pequenos goles, sem sentido,
Encerra a sua poesia.